Shoujo Café 38 – Animes, Cosplay e um Romance Mal Resolvido
Anime Pró 19-12-2007

Tinha prometido ao Júnior que iria preparar uma coluna para esta semana, afinal, havia tanto tempo que não escrevia nada e tanta coisa a comentar. Gravitation… os boatos sobre Nana… os possíveis lançamentos da Panini… Zettai Kareshi. Só que na última hora decidi mudar de rumo, a matéria do Fantástico me obrigou. Certamente a maioria já sabe do que se trata e hoje o fandom ferveu, seja nos blogs, listas de discussão ou, principalmente, no Orkut.

Durante toda a semana passada, fomos brindados com matérias nas TVs e na internet sobre um casal de adolescentes que teria fugido de casa, porque seu romance não era bem visto pela família da moça. Só abrindo um parêntese aqui: se o namorado adolescente da filha que não tenho não estudasse, também me preocuparia. Mas, enfim, um fato corriqueiro desde que o mundo é mundo, em especial nos tempos em que casamento era coisa de família e, não guiado por princípios burgueses de felicidade pessoal. Por conta disso, romances adolescentes podem render boas histórias como Romeu e Julieta, mas raramente notícia em horário nobre. Infelizmente, pelo menos na concepção da Bandeirante, da Globo e do pai da moça, a causa da fuga dos dois seriam os animes e o hábito de fazer cosplayers. Eis um trecho da matéria do Fantástico:

“Clara e Robson são adolescentes obcecados pelo universo dos… desenhosanimados japoneses.

Apaixonados, eles resolveram fugir de casa para viver seu amor, embalados por algo chamado ‘cosplay'”

Difícil entender a ponte que foi feita. Havia alguma carta? Algo em diário, e-mail dizendo vamos fugir como tal personagem de anime faz em tal série, movie, ou sei lá o quê? Os animes e o hobby de fazer cosplay foram citados, mas em nenhum momento uma ligação sólida entre a fuga foi estabelecida ou o tipo de conflito familiar enfrentado pelos jovens esclarecido. Fora que mostraram – assim como aconteceu na matéria da Bandeirantes no meio da semana – cosplays que não era de anime. No caso, o Capitão Jack Sparrow de Piratas do Caribe. Poderiam então demonizar toda a cultura pop, mas decidiram falar de anime.

O pai da menina – a mãe não apareceu no Fantástico, embora tenha dado declarações durante a semana – falou em visual agressivo ou algo do gênero. Não houve qualificações. O pai do rapaz comentou que não demonstrava muito o amor pelo filho. Indícios de desajuste familiar e a terapeuta, em tempos de guinada à direita, falou em hierarquia e reconhecer quem está no comando. Não falou de ouvir os filhos, estabelecer regras e discutir sua validade, afinal, são adolescentes e estes deveriam estar na fronteira da vida adulta. O problema é que em tempos de infantilização, se um filho de 17 anos não estuda, ele não vai ter que trabalhar para se manter ocupado, assim, é muito cômodo. De qualquer forma, eu recomendaria tanto aos pais como à terapeuta assistirem ao programa Anjolescentes ou, mesmo ao S.O.S. Babá. Cada vez mais acredito que eles sejam muito instrutivos…

Aliás, filhos problemáticos, normalmente têm pais problemáticos, minha experiência como professora atendendo responsáveis aponta para isso. Tenho quase 15 anos de vivência e muitos “causos” sinistros para contar, inclusive de menina que fugiu de casa e acusou o padrasto de abuso sexual. A mãe dizia para quem quisesse ouvir, em especial para a professora preocupada em levantar a auto-estima da garota com notas baixas e conformada, que a filha mais velha era burra e tinha mais que arranjar um homem que a sustentasse. Assim, ficou do lado do marido. Afinal, a adolescente estava mentindo e mesmo que não estivesse, se algo aconteceu foi porque a filha – desavergonhada, que não queria ir para a igreja, que usava decote e maquiagem – provocou.

É somente um caso entre muitos, um caso antigo, porque os novos não comento, e triste que eu não sei como terminou. Adolescentes mentem, manipulam, podem ser cruéis, fazem coisas loucas para chamar a atenção, mas adultos, às vezes, são covardes e não admitem os seus erros em especial em relação aos filhos, assim, é mais fácil culpar a TV, o cinema, o RPG, ou o que mais estiver ao alcance para usar como cortina de fumaça. São os instrumentos do demônio, a serviço do mal e da dissolução dos bons valores familiares.

A terapeuta que aparece na matéria não falou de anime, era a reportagem que tentava fazer o elo, reforçando o caráter fantasioso e delirante dos cosplayers como se eles vivessem em um mundo à parte. Fiquei me perguntando quem eram os cosplayers que se prestaram a aparecer na reportagem. Pois bem, agora eu sei, e os meninos e meninas foram enganados pela produção do Fantástico, a mais tradicional revista televisiva do país. Vejam o texto do e-mail que eu recebi e peço que visitem a página e leiam o depoimento de uma das cosplayers, eis o texto que recebi por e-mail (*sem alterações ou correções*):

“O q esperar agora da Rede Globo??

Foi demonstrado um total desrespeito e distorção dos fatos, uma das entrevistadas, a finalista do WCS (World Cosplay Summit), o campeonato mundial de cosplay, mostra sua indignação no seu fotolog segue o endereço pra quem quiser conferir: www.fotolog.com/yukilefay

A globo precisa aprender a ter respeito com os outros… Naum se deve avaliar as coisas como eles fizeram…

Pra quem ainda não viu: Universo anime inspira fuga de namorados: Clique AQUI.

Pra quem ja viu e quer protestar: Clique AQUI.

Divulguem isso!! não deixem essa máfia televisiva manipular os fatos e contar as coisas do jeito q eles querem, coisa q eles adoram fazer!!”

 

Isso é somente parte da história, claro. O que realmente achei interessante foi a atitude de um estudante de Direito, fã de animes, Túlio Monegatto Tonheiro que escreveu para o Ministério Público do Estado de São Paulo e o Federal. Com permissão dele reproduzo a petição enviada:

“E-mail enviado para o Ministério Público… Para conhecimento de todos, copia a íntegra do e-mail que mandei hoje para o MP:
Ilmos. Srs. do Ministério Público do Estado de São Paulo,
Bom dia. Meu nome é Túlio Monegatto Tonheiro, solteiro, estudante de Direito da Universidade Presbiteriana Mackenzie, residente e domiciliado na Rua José Albino, nº 92, São Paulo/SP, e, como muitos jovens e adultos em todo o mundo, posso dizer que faço parte da “tribo” chamada otaku. Apresento nesse e-mail denúncia contra matéria jornalística apresentada pela Rede Globo – Globo Comunicação e Participações S.A., com filial em São Paulo na Av. Dr. Chucri Zaidan, 46, Vila Cordeiro, São Paulo/SP.

Os otakus são pessoas que, dentre suas vidas e atividades normais, dedicam seu tempo livre em seu hobby, assistir animes, ler mangás e fazer cosplay.

Anime são os desenhos animados japoneses, e mangá é o correspondente em histórias em quadrinhos. Ambos, formas de arte mundialmente reconhecidas e respeitadas, o que além de gerar uma construtiva indústria do entretenimento, ainda promovem grande fluxo na economia da área.

Cosplay é um neologismo criado pelas palavras “costume” (roupa) e “play” (jogar, atuar). É o termo usado para as pessoas que se vestem com roupas similiares aos personagens de filmes, jogos e desenhos, a fim de fazer um teatro, simulando o personagem, participando de concursos e confraternizações com outros que partilham do mesmo hobby.

Meu contato é fundado na matéria exibida ontem, dia 17 de junho de 2007, pelo programa Fantástico, exibido pela Rede Globo. Na matéria, intitulada “Universo anime inspira a fuga de namorados”, a Globo utilizou a imagem dos otakus, principalmente os cosplayers (aqueles que praticam o cosplay), de forma depreciativa, diante do caso da fuga de um casal de namorados de caso por conta de conflitos em família.

O caso, que mais relação tem a ver com Romeu e Julieta, nada tem a ver com o hobby. Em nenhum momento da reportagem houve sequer uma fundamentação para a agressão contra a imagem dos otakus.

Foi realizada entrevista com diversos cosplayers, imagens usadas na reportagem. No entanto, o conteúdo da conversa não foi sequer exibido, onde estes esclareciam tudo sobre o hobby, e inclusive criticavam a atitude imprudente do casal. É claro que nenhum daqueles que apareceram na reportagem tinha a intenção de aparecer em rede nacional citados como infantis, imprudentes e inconseqüentes, dando já nesse ponto o primeiro vício e ilicitude praticado pela Rede Globo.

Além disso, os otakus em geral foram imensamente prejudicados. Numa sociedade onde reina o senso comum e o preconceito é forte contra quem pensa e gosta de coisas diferentes, os otakus, que já eram discriminados, já estão enfrentando de imediato os efeitos da matéria exibida. Na internet o impacto foi imediatamente notado, visto que vários otakus se manifestaram, dizendo que seus parentes e amigos já começaram a tomar atitudes repulsivas contra eles, logo após a exibição da matéria. Nesse ponto, apresento a segunda ilicitude, onde está claro o dano moral causado à coletividade, contra todos os otakus em geral.

Um terceiro ponto, mas imensamente importante, é o uso das imagens dos animes ao fundo da reportagem. Um dos desenhos exibidos, o Yuyu Hakusho, tens os direitos de imagens de posse de outra emissora, sendo ilegal a sua reprodução sem autorização. Além disso, foram usadas imagens de outros animes e mangás, todas elas ainda nem sequer possuem distribuição autorizada no país ainda, caracterizando nisso a terceira ilicitude.

Para tanto, anexo o link da matéria, exibida na internet, pelo site da própria Globo:

http://video.globo.com/Videos/Player/Noticias/0,,GIM690129-7823-UNIVERSO+ANIME+INSPIRA+FUGA+DE+NAMORADOS,00.html

Para tanto, fundado nos preceitos do bom direito, nas normas do Código Cívil, em seu art. 186, e na Lei 5.250 (Lei de Imprensa), formalizo minha denúncia, e solicito seja instaurado processo contra a Rede Globo de Televisão, onde proponho seja solicitado indenização por danos morais contra a coletividade. Além disso, solicito sejam notificados os responsáveis pelos direitos de imagem dos animes usado na reportagem, para que tomem as medidas cabíveis. Afinal, sejam representados também os cosplayers, que tiveram suas imagens indevidamente utilizadas, configurando claro vício de vontade, dolo praticado pela equipe de reportagem da Globo, que, segundo comentado através do site de relacionamentos “orkut”, no momento da entrevista foi dito que as imagens seriam usadas para falar do universo anime, como matéria puramente informativa, e não de caráter acusador, como apresentado.

Solicito uma resposta assim que possível, para que possa encaminhá-la ao site “orkut”, onde é mantido um fórum de discussão sobre o assunto, com diversos otakus, inclusive os que aparecem na citada matéria.

Agradeço a atenção, e fico no aguardo da resposta.
Atenciosamente,
Túlio Monegatto Tonheiro ”

 

De acordo com uma amiga que está concluindo o curso de Direito aqui em Brasília, nem tudo o que consta na petição será visto como procedente, no entanto, ela está bem redigida e toca em dois pontos importantes, os cosplayers foram enganados, houve o uso de imagens de YuYu Hakushô que pertencem a outra emissora e, acrescentaria eu, o de fanarts de Death Note.

A iniciativa foi muito importante e o que eu proponho aos fãs é que escrevam e-mails para a emissora, de forma que ela se veja moralmente obrigada a se retratar. É possível que o faça. E aos fãs de anime que são estudantes de Direito, façam petições semelhantes. Vocês podem fazer o que um fã comum não tem condições.Eu não conheço as leis e o vocabulário jurídico adequado, aproveitem as suas capacidades. Só não carregaria muito na palavra “otaku”, pois me parece sem grande relevância no texto. Somos fãs de anime e mangá, cosplayers ou não, e sofremos um ataque inexplicável por parte da maior rede de comunicação do país.

É um absurdo que um caso que parece envolver desajustes familiares, falta de diálogo entre pais e filhos, discriminação social e/ou racial, ou simplesmente mais um romance adolescente que não aceita limites, seja convertido em um caso de influência maléfica dos animes. Se eu quisesse acreditar em “teoria da conspiração”, começaria a ver o medo da concorrência como uma sombra no horizonte, porque, sim, eu acredito que Naruto no SBT pela manhã vá causar grande estrago no cambaleante IBOPE da Globo no horário matinal. Fora que o anime nas mãos de Sílvio Santos pode entrar às seis da tarde, em um momento no qual a novela global não conseguiu ainda se afirmar muito bem e um anime bem colocado poderia perturbar muito. Pensem. As coisas podem não ser gratuitas, mas aqui é delírio meu.

Lembrem também dos danos a comunidade de RPG que matérias deste tipo causaram. Na escola onde leciono não se pode falar em RPG, não desejo que não possamos falar de anime e mangá, também.  Isso me deixou bem preocupada. A Globo tem poder, mas nós também podemos mostrar que nos mobilizando podemos pressionar.  Davi contra Golias, mas Davi ganhou no final.   Escrevam, escrevam insistentemente para a Globo usando os canais que ela concede, talvez assim alguma coisa aconteça.


Destaques

As Memórias de Marnie estreia em novembro no Brasil!

O filme As Memórias de Marnie do Studio Ghibli será lançado nos cinemas brasileiros no dia 19 de novembro.  …

Leia mais

“When Marnie Was There” do Studio Ghibli será lançado no Brasil!

O filme When Marnie Was There do Studio Ghibli será lançado no Brasil pela Califórnia Filmes (que trouxe recentemente Vidas …

Leia mais
Categorias
Mídias Sociais