Shoujo Café 20 – Falta muita coisa
Anime Pró 24-07-2006

Quando soube que há um filme de Rough a caminho, me senti tentada a fazer uma coluna sobre Mitsuru Adachi.  Já vinha pensando na obra deste manga-ka genial faz tempo e no quanto ele é desconhecido e até discriminado.  Por exemplo, em uma das listas das quais participo, alguém recomendou o mangá Touch, obra maior de Adachi, e o outro resmungou de volta que não gostava de baseball.  A resposta de quem sugeriu a série não poderia ter sido melhor: “Touch não é sobre baseball, é sobre pessoas”.

Aliás, quase todas as obras de Adachi vêm travestidas como “mangá de esportes”, só que na realidade, são um mergulho no psicológico das personagens e nas relações humanas.  Não bastasse isso, o autor domina muito bem a arte de contar histórias.  Conheci Mitsuru Adachi antes de ler qualquer coisa do mestre Will Eisner ou mesmo de Osamu Tezuka, hoje não consigo olhar para um mangá de Adachi sem lembrar desses dois mestres que devem ? Tezuka com certeza ? ter influenciado o autor.  Isso porque Mitsuru Adachi consegue ter uma narrativa dinâmica e faz milagres com as imagens, às vezes sem usar um balão de texto sequer.

Aliás, assim como Tezuka, Mitsuru Adachi também participa de algumas animações de obras suas e até de outros autores, como no caso do anime de Bewitching Nozomi… A série ficou tão parecida com as obras do mangá-ka que demorei a descobrir que o original não era dele nem tinha nada a ver com seu estilo.  Como falei em Touch, vou comentar um pouquinho sobre a obra, afinal, a coluna de hoje não é somente sobre Adachi.

Touch (1981-1986) é um dos mangás mais amados pelos japoneses até hoje e sua série animada é repetida na tv nipônica todos os anos.  Já teve movies e voltou a ser muito falado por causa do live action em 2005. (1)  A história gira em torno de um trio de adolescentes, os gêmos, Tatsuya e Kazuya, e a vizinha Minami.  É um triângulo óbvio, a amizade torna-se amor, mas Minami sabe exatamente o que deseja, um deles vai levá-la ao altar, o outro ao Koshien, templo do baseball japonês. (2)  Os dois irmãos amam a menina, obviamente, mas uma tragédia marcará a vida dos três.  Nada pior do que ter seu irmão como rival, pior ainda quando esse rival está morto!

Viram que eu só falei vagamente de baseball, poderia dar mais detalhes como o fato de um dos irmãos, Tatsuya, ser um jogador promissor e o outro, Kazuya, preguiçoso e pouco aplicado, mas com potencial para superar o outro.  Minami, não joga baseball no colégio, mas é ela mesma uma grande ginasta e manager do time de baseball.  Tenho os quatro primeiros volumes de Touch, o esporte está lá, mas é o dia-a-dia dos três adolescentes, famílias e amigos que conta mais.

Eu gosto muito de mangas de esporte (já fiz até uma coluna sobre isso), em especial daqueles que focam no crescimento das personagens, nas relações humanas. Não precisa ser shoujo manga para fazer essas coisas, Mitsuru Adachi é especialista nisso.  Eu posso ler um mangá por gostar do esporte também, mas isso é secundário, o importante são as personagens e as mensagens passadas.  Por isso, mesmo gostando muito de basquete, um anime como Dear Boys, carregado de misoginia, não me interessa, a história não vai me fazer vibrar nem torcer pelas protagonistas.  Não preciso gostar nem entender de baseball para curtir as obras de Adachi, porque o esporte é pano de fundo, não o foco principal da história.  O que não quer dizer, claro, que muitos japoneses não tenham ido jogar baseball por causa de Touch ou H2… mas isso é papo para outra coluna.

Não tenho esperanças de ver Touch saindo por aqui, sei que baseball é esporte pouco conhecido e alguns fãs começariam a falar mal da escolha sem mesmo olhar para a capa.  Valem lembrar, também, que mesmo que o mangá tenha sido publicado em países com pouca tradição nesta modalidade, como Espanha e França, é preciso lembrar que o anime passou por lá.  Anime, aliás, excelente, foi por causa dele que cheguei até a obra de Adachi.  Antes que eu me perca vou dizer o que realmente me fez escrever tudo isso: o maravilhoso volume de Nausicaä.  Pensei logo em Adachi, e em Short Programs, que tem dois volumes de coletâneas de histórias e ficaria muito bem naquele formato.

Eu tive contado com Short Programs ? que foi publicado em formato maior que a média dos mangás ? quando, logo depois da minha mudança, passando em um sebo aqui de Brasília vi o mangá a venda.  Míseros R$4,00.  Não havia porque não levar para casa, às vezes é uma sorte que o vendedor não saiba o valor daquilo que tem em suas mãos.  Short Programs é a única obra de Adachi publicada nos EUA.  Sal na antiga Animerica Extra, junto com X, Fushigi Yuugi, e outras séries.  Algum tempo depois foi lançada em volumes compilados.  O volume um ainda precisa ser republicado em formato japonês, mas o dois já recebeu o tratamento padrão para os dias de hoje.

Acabei adquirindo o segundo volume, o mesmo que tenho em japonês.  Em Short Programs temos histórias curtas e variadas que vão desde casos envolvendo baseball, até casos de detetive, de fantasmas, tragédias envolvendo amigos, contos de amor correspondido, ou não.  Seria um ótimo cartão de visitas para a obra do autor.  Mas quem conhece Adachi no Brasil?  Já vi gente que nunca leu nada dele falando que o cara desenha mal… Bem, ele tem um estilo cartunesco, mas não é o único a desenhar dessa maneira no Japão.  E não fazer moleques de cabelo espetado ou garotas peitudas não torna ninguém um mal desenhista, longe disso aliás.

Adachi faz de tudo, de mangá à animação, do shounen ao shoujo, com muito talento.  Seu mangá mais recente, Cross Game aparece sempre na lista dos mais vendidos da Tohan, mas ele não apela para coisas que por aqui muita gente identifica com shounen mangá: lutas sem fim, violência, fanservice, sexo.  Ele não precisa disso para chamar a atenção e é exatamente por esse motivo que ele sobrevive na memória das pessoas.  Como somente Short Programs saiu nos EUA, muito grupos de fãs se dedicam a traduzir as obras deste mangá-ka.  Está interessada ou interessado?  Basta clicar aqui.

Depois de tudo que disse, vocês já sabem que sou fã da obra de Mitsuru Adachi e defendo sua publicação, ainda mais nesse novo formato da Conrad.  Não gosto somente de shoujo.  Ser shoujo não torna um material bom, nem tão pouco as mulheres no Japão só lêem o gênero, que é feito por e para elas.  Aliás, graças a isso a Shounen Jump tem vendas saudáveis. Obviamente, a forma como as meninas e mulheres lêem os shounen mangá pode ser bem diferente do que o autor original tinha em mente, vide o saudável mercado de fanzines yaoi.

Efetivamente, há shoujos mangá que eu não gostaria de ver saindo no Brasil.  Um exemplo que poderia dar é o do mangá da coleção Harlequin que eu comprei.  Acredito já ter comentado antes em alguma coluna, mas no Japão esses romances de banca, tipo Júlia e Sabrina, Clássicos Históricos (*que me dão calafrios como historiadora*), e outros.  Não tenho experiência na leitura desse material, mas ao serem convertidos em formato mangá no Japão, tecnicamente, viram shoujo mangá.

Vamos do começo, semana passada, graças a um equívoco da Livraria Cultura, eu comprei o meu primeiro Harlequin. Eu tinha sondado o preço da versão mangá publicada pela Dark Horse do livro Harlequin “Holding on to Alex”. Quando vi as críticas na internet, decidi não comprar, não confirmei o pedido, mas a Cultura trouxe assim mesmo e minha curiosidade foi maior.

Começarei com as partes positivas… A arte é muito boa, foi esse um dos motivos pelos quais o mangá tinha me chamado a atenção, dentre os outros da coleção. A desenhista japonesa, Misao Hoshiai, é o que dá algum alento ao mangá. Ela não é nenhuma Kyouko Ariyoshi, a autora do magnífico Swan, mas não faz feio. A idéia de usarem tinta violeta em toda a arte do mangá também é legal. Explicando, a coleção Harlequin da Dark Horse é dividida por cores, suponho que as outras também usem este recurso. Bem, terminaram os elogios…

A primeira coisa a pontuar é que o mangá é mais fino que a média americana e custa o mesmo preço. Não recomendo, então trocar uma edição americana de um mangá de primeira linha, por coleção Harlequin… Só para aficionados, em especial para os fãs da autora do romance, Margaret Way. Falando da história em si, a primeira coisa a pontuar é que ela parece saída do backlash do pós-Segunda Guerra, com todo o machismo grosseiro travestido de romantismo que pode enganar a alguns, mas que, no fim das contas só visam transformar as mulheres em “rainhas do lar”, fazendo com que elas larguem suas carreiras e abram espaço para que os homens possam crescer e brilhar sozinhos. E que fique bem claro que quem define o que é “ser rainha” é o homem, o senhor do castelo, e que você é uma mulher má se não aceitar direitinho esse papel. Ainda tentei relevar, imaginei que o livro pudesse ter uns trinta, quarenta anos, mas quando chequei a data do livro, 1997, não deu. Quando encontrar qualquer coisa assinado por essa Senhora (*será que é mulher mesmo?*), Margaret Way, eu passo longe.

Mas vamos ao que interessa, a história! Austrália, fazenda riquíssima bem longe das grandes cidades, jogos de pólo (*assim, coisa no melhor estilo novela podre do Manoel Carlos*), uma heroína órfã de nome Alex, e o objeto do desejo sete anos mais velho, Scott. Alex é adotada aos dez anos pela tia de Scott que também o criou. Scott, o herdeiro de tudo, trata a moça como irmãzinha, até que ela cresce, ele percebe, os dois começam a namorar, transam e ele propõe que se casem em um mês, afinal, ele a escolheu para ser SUA RAINHA. Que honra, não? Começa aí o drama.

Alex quer ser bailarina clássica, tem talento e está com uma audição marcada em Sidney. O apaixonadíssimo Scott a chama de traidora, mulher sem coração, diz que ela está trocando o amor dele e da tia idosa pela fama e fortuna, que Sidney é muito longe, que ele jamais a perdoará, etc, etc. Só faltou bater nela. Engraçado é que ele até diz que ela está fazendo isso para “competir com ele”, mostrar que pode ter uma carreira sem ele. Nenhuma sombra de insegurança, machismo ou egoísmo. Detalhe, o cara tem um jatinho, Sidney deve ficar a meia hora da fazendinha dele…

Alex não recua, vira uma grande bailarina. Três anos depois, a tragédia (*Castigo Divino?*): ela sofre um acidente no palco, rompe os ligamentos, quebra o tornozelo e vai ter que enfrentar uma longa recuperação. Daí, aparece o tal Scott para buscá-la “por ordem da tia” para que ela se recupere na fazenda. Ele a trata mal, diz que está de casamento marcado com uma mulher que merece tudo o que ele tem a oferecer e aceita ser “sua rainha”. Muito doce, né? Nossa Alex, de míseros 23 aninhos, começa a se questionar sobre o fato de ter jogado, por egoísmo, sua ÚNICA chance de ser feliz fora. Afinal, Scott era seu DESTINO e a amava.

Não preciso dizer que Alex se recupera, Scott mostra um ciúme doentio pelo fisioterapeuta e de tudo que não seja “ele” na vida da moça, eles reatam, ele chuta a noiva fútil (*assim, sem maiores cuidados*), a mulher rejeitada tenta matar Alex, ela se salva graças ao seu talento como bailarina (*dá um grande salto e cai nos braços de Scott*). Ele propõe casamento de novo, diz que precisa de uma mulher “forte” como ela para gerir a fazenda. Ela não pensa duas vezes, aceita e diz que pode dançar ali mesmo… Onde?! Deve estar se referindo a sala de estar ou ao quarto de dormir, tamanho o ciúme do sujeito.

Enfim, se isso é o padrão Harlequin de herói sexy e heroína independente, eu rejeito. Obviamente, estarei sendo preconceituosa, afinal, o livro foi muito enxugado para caber no mangá… Mas se a mensagem é essa, não mudou muito. E é de 1997!!!! Até o filme Sinfonia Interrompida, que tem semelhanças de plot (*a heroína é australiana, é cantora lírica, o marido a chantageia para que ela largue a carreira porque a dele é muito mais importante, ela fica aleijada, etc*) com esse livro, me parece mais moderno e tem um protagonista menos machista. Só para constar, o filme é de 1955.

Bem, como umas amigas falam muito bem desses livros, decidi dar outra chance, afinal, são centenas de autoras, essa Margaret Way pode ser um dos ovos podres. Mas se este for realmente o padrão da coisa, eu torcerei para que mangás Harlequin não saiam por aqui, pois vai que coisas como “Holding on to Alex” viram sinônimo de shoujo mangá na cabeça de um monte de gente.

Agora, se eu tivesse que escolher entre esse tipo de história arcaica e um mangá legitimamente japonês como Teacher?s Pet, da autora do famoso Hot Gimmick, eu ficaria com esse produto Harlequin.  Afinal, o que vocês acham de uma trama que gira em torno de uma professora, adulta, que é agredida e violentada por um aluno adolescente, fraco e baixinho, que só por acaso é irmão de seu noivo?  E a história, claro, não termina da delegacia, porque ela não denuncia, não reage e vira amante do rapaz…  Entre o backlash desse mangá Harlequin e Nelson Rodrigues travestido de shoujo mangá… Um… Fico com Mitsuru Adachi!

Brincadeiras a parte, o universo de bons shoujos mangás extrapola e muito a mediocridade que comentei aqui. Enquanto isso, nos EUA, os lançamentos são anunciados e o público fã de shoujo é muito bem contemplado.  Mas nós aqui… Enfim…

Digo que apesar do lançamento de Princess-Ai ? que deve ser a próxima coluna, basta que eu possa ler o material ? ainda continuamos em grande desvantagem em relação ao que é publicado.  O pessoal anti-shoujo pode debochar e fechar os olhos, a desproporção entre as publicações direcionadas conscientemente a um público feminino e as demais continua enorme.  Entre o final de 2005 e meados de 2006, só para contabilizar, tivemos anunciados quase quarenta títulos entre séries longas e curtas,  somente três (3) eram shoujo, nenhum josei.  Temos Merupuri, Karekano e Princess-Ai. Podemos contabilizar XXXHolic, apesar de eu discordar, fazemos 4.  Parece até esmola.

Será que não temos motivo para reclamações ou o pessoal que diz que devemos ficar calados no nosso canto, não sabe contar?  Pois bem, o ano está terminando, pode aparecer alguma coisa ainda. Temos que comemorar boas escolhas como Nausicaä, mas shoujo mesmo que é bom, quase nada.  E como são duas séries curtas, somente Karekano mesmo vai durar, e mais, somente esta série estava na lista de pedidos da maioria dos consumidores.  Enfim, reafirmo que falta muita coisa, de Mitsuru Adachi a bons shoujo mangá.

—————————————–

Valéria Fernandes

shoujofan@uol.com.br

http://www.shoujo-cafe.blogspot.com

—————————————–

P.S.1: Tive que formatar meu pc semana passada, por isso não tivemos coluna e acabei juntando duas em uma.  Peço desculpas ao pessoal que não teve seus e-mails respondidos, mas infelizmente, minha caixa de entrada se perdeu… Se puderem me repassar, prometo responder tudinho.  Como alguns eram antigos, peço desculpas duas vezes.

P.S.2: Já havia falado aqui que montei um Abaixo-Assinado pela publicação de Anatólia Story… Era uma forma de testar o interesse do pessoal.  Por enquanto, muito pouca gente assinou, mas, mesmo assim, decidi começar um trabalho de tradução da série.  Quem tiver interesse em ler, pode fazer o download aqui.  Já temos três capítulos, o resto do primeiro volume virá até o fim deste mês.

P.S.3: O Shoujo Manga Outline, colocou a lista dos shoujos mais vendidos de junho no Japão.  O primeiro lugar, Bokura ga Ita, tinha anime para estrear… não me espanta a boa colocação, ele já estava na lista de maio e aposto que apareça da de julho, também. Segundo lugar é Fruits Basket na sua reta final, seria estranho não aparecer, mas deve-se ressaltar que em maio Fruits Basket estava em primeiro, ou seja caiu uma colocação somente! Agora, o legal é ver o clássico Ouke no Monshou em 9º! 51 volumes, sem expectativa de terminar e vendendo bem. ^_^

 


[1] Troquei e-mails por um ano com um menino japonês, por conta de um projeto escolar.  Quando perguntei para o garoto, que tinha 13 anos, qual o seu mangá favorito, imaginei que ele falaria Naruto ? sucesso na época ? ou outro hit qualquer.  Só que a série favorita dela era Touch de Mitsuru Adachi.

[2] Minami é uma excelente atleta, mas sabe que não poderá jogar no Koshien, afinal, o baseball no Japão tem a mesma lógica machista do futebol aqui no Brasil… Mas Adachi não discute isso, não é um mangá feminista, deixo a discussão para Princess Nine.

Destaques

As Memórias de Marnie estreia em novembro no Brasil!

O filme As Memórias de Marnie do Studio Ghibli será lançado nos cinemas brasileiros no dia 19 de novembro.  …

Leia mais

“When Marnie Was There” do Studio Ghibli será lançado no Brasil!

O filme When Marnie Was There do Studio Ghibli será lançado no Brasil pela Califórnia Filmes (que trouxe recentemente Vidas …

Leia mais
Categorias
Mídias Sociais