O grande barato de editar um fanzine
Anime Pró 28-01-2006

Afinal de contas, por que muita gente parece perder tempo (e dinheiro) produzindo um fanzine? A verdade é que a satisfação gerada pela confecção de um zine ? de ver o seu esforço pessoal concretizado na forma de uma revista, de poder distribuí-lo por aí, e por fim, de poder receber comentários (favoráveis ou não) ? não tem preço, e muitas vezes, valem mais que rios de dinheiro…

Por que a gente faz fanzine?
Os motivos podem ser inúmeros, mas geralmente os fanzineiros são formados por fãs de determinado assunto, como personagem ou autor de quadrinhos, atores de cinema, músicos etc. É muito comum grupos de fãs formarem um fã-clube, e daí, surgir um boletim com notícias destinadas a suprir a necessidade de informação deles e de outros interessados pelo assunto.
Aqui no Brasil, o primeiro caso de um boletim informativo é creditado ao Sr. Edson Rontani, de Piracicaba ? interior de São Paulo ? que, em 1965, lançou o Ficção (Boletim do Intercâmbio Ciência-Ficção Alex Raymond). Adiante, Rontani voltaria a lançar outras publicações independentes, assumindo de vez o termo inglês “fanzine” (magazine do fã = revista do fã), para elas, a partir de meados dos anos 1970.
Há também, aqueles que buscam o caminho da profissionalização através dos zines, seja como um pesquisador, entrevistador, tradutor, ou mesmo como desenhista e roteirista de histórias em quadrinhos. Surge então, um novo termo para essas publicações que trazem única e exclusivamente HQs do autor: “Revistas Independentes”.
Há inúmeros exemplos de quadrinhos independentes que acabaram virando obras profissionais, tais como os de André Diniz (proprietário da editora Nona Arte), o do personagem Meteoro (deste que vos escreve), publicado pela Editora Escala, e da heroína Velta, de autoria de Emir Ribeiro ? que inclusive, chegou a ser desenhada por Mike Deodato (atual desenhista do Hulk). Nos últimos anos, Velta abrilhantou dois álbuns publicados pela Opera Graphica Editora.

Como fazer, como divulgar e onde distribuir um fanzine?
Antigamente, era comum produzir fanzines em mimeógrafos. A dificuldade, entretanto, era conseguir aplicar as imagens no trabalho. Com o surgimento das máquinas copiadoras, esse problema foi sanado. Além disso, as copiadoras propiciavam ao editor do zine, produzir poucas cópias (entre 20 e 50) a um custo unitário bem baixo. O problema é que até o final da década de 1980, a qualidade das cópias eram muito ruins, e costumavam ficar apagadas com o tempo ? o que depreciava todo o trabalho do fanzineiro.
Em meados dos anos 1990, com o advento de duplicadores digitais, o sonho de vários editores independentes em poder imprimir uma tiragem que ultrapassasse a marca de 100 cópias a custos acessíveis tornou-se realidade, embora a qualidade de impressão neste processo, ainda esteja diretamente ligada à boa vontade do operador da máquina. Alguns editores mais abonados (ou propensos a sacrifícios), preferem imprimir no sistema off set ? que costuma sair mais caro no total, mas bem barato, na unidade, e que por conseguinte, dá um aspecto mais “nobre” à sua publicação. Os exemplos são inúmeros, mas podemos destacar a graphic Semideuses, do grupo Saga, de 1993, e o gibi Os Protetores, do selo alternativo Fire Comics, lançado em 1995. Dois mais recentes, podemos destacar o DB Milênio, da Equipe DBM (hoje, Anime Pró).
Mas se você é daqueles que está se iniciando na fanedição (termo usado no meio alternativo a respeito dos editores de fanzines), e não tem a pretensão de investir muito dinheiro nele, a produção básica, consiste no seguinte:

– Ao dobrar ao meio uma folha A4, automaticamente, você terá 4 páginas a sua disposição. Se por acaso, você intercalar, digamos, mais 4 folhas dobradas, você já terá um “boneco” de revista de 20 páginas, no formato 15 x 21 cm.

– Hoje em dia, com a facilidade da informática, você pode diagramar todo o fanzine no computador. Daí, é só imprimir as páginas no formato especificado e colá-las no boneco.

– Com o boneco completo, você o levará aberto à uma copiadora e imprimirá a quantidade de cópias que quiser.

– Hoje em dia, muitas copiadoras fornecem o serviço de grampear e laminar as bordas da revista (para que não se crie o efeito “escadinha” nas folhas). Mas caso você não se importe com o efeito “escadinha” e queira economizar no serviço de grampo, leve as cópias para casa e as coloque abertas e centralizadas sobre uma borracha macia. Abra a lingüeta de seu grampeador e o pressione contra o centro da folha. Daí, é só desprender a borracha, dobrar as folhas, e sua revista (fanzine) estará montada.

É preciso você ter a consciência de que um fanzine não é um trabalho que visa o lucro, ao menos imediato, e que alguns exemplares podem (e devem), seguir como “cortesia do editor”, a fim de que seu trabalho conquiste alguma repercussão. Para divulgar seu fanzine, você poderá enviá-lo a vários lugares, como jornais e seções de cartas de revistas em quadrinhos. Mas não há garantia nenhuma que você conseguirá algum tipo de repercussão com isso. Não é nem por má vontade dos jornalistas e editores, mas sim, por disponibilidade de espaço e proposta de suas colunas. Mas o legal, é que no meio alternativo a camaradagem costuma imperar entre os fanzineiros. Uns costumam divulgar os outros em suas páginas. O QI, de Edgard Guimarães, é uma publicação voltada, quase em sua totalidade, à divulgação de fanzines. É só enviar um exemplar para o Edgard (Rua Capitão Gomes, 168 – Brasópolis/MG 37530-000); que ele fará uma resenha e reproduzirá seu zine no QI (Quadrinhos Independentes) que por sua vez, tem uma distribuição abrangente de 500 exemplares.

– Por fim, além de distribuir seu fanzine pelo correio, você poderá colocá-los em lojas especializadas (comic shops) e até em bancas de jornais, à base de consignação. Geralmente, os lojistas são mais receptivos a revender fanzines que os jornaleiros, pois suas lojas são verdadeiros points, lugares mais propícios a aparecerem possíveis interessados neste tipo de trabalho. Você pode usar seu poder de barganha, e tentar vender diretamente ao lojista, ou quem sabe, conseguir um anúncio pago da loja dele em sua publicação ? o que já ajudaria nos gastos de produção.

    Produzir um fanzine ou revista independente é uma atividade prazerosa, que propicia ao editor, ensinar e aprender, ao mesmo tempo. O contato via correio é muito bacana, e você acaba conhecendo muita gente interessante, que podem até se tornar suas amigas, futuramente. Se a profissionalização for sua meta, os zines, com certeza, servirão de laboratório para você experimentar e aprimorar seu talento ? seja o de escrever, seja o de desenhar. Leve sempre em conta as opiniões sinceras, principalmente as críticas, e saiba tirar proveito de tudo. Saiba que muitos que começaram nos fanzines, hoje são excelentes profissionais. Quem sabe você poderá ser o próximo, hein?

Por Roberto Guedes – firecomics@ig.com.br: Editor de quadrinhos da Opera Graphica e autor do livro Quando Surgem os Super-Heróis

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