Review: Mangá Ghost in the Shell
Rach Asakawa 29-03-2017

No início desse ano chegou finalmente às livrarias e bancas brasileiras o compilado da primeira série do mangá de Ghost in the Shell, de autoria de Masamune Shirow. Em um futuro não muito distante, a Major Motoko Kusanagi é a lider do Setor 9, um esquadrão de segurança pública que desvenda casos de cyber crimes e outras complicações causadas por ciborgues e robôs.

Publicado originalmente entre 1989 e 1990 na revista Young Magazine Kaizokuban, a obra chegou ao Brasil em um encadernado de 350 páginas, seguindo o padrão das versões internacionais previamente lançadas.

A capa brasileira do mangá de Ghost in the Shell

A capa brasileira do mangá de Ghost in the Shell

O mangá

Primeiro você precisa esquecer tudo o que já viu da série até o momento. Esqueça o filme de 1995, esqueça as séries Stand Alone Complex e Arise e esqueça também os trailers do filme que está para sair esta semana. No entanto, se você está entrando em contato com a série pela primeira vez agora, melhor ainda.

A obra original de Masamune Shirow é um universo à parte que nunca foi reproduzido em sua total fidelidade. De ordem de acontecimentos, dos acontecimentos propriamente em si, para até mesmo a personalidade e decisões dos personagens, tudo muda.

Muitos dos temas das missões e até mesmo cenas inteiras foram depois utilizadas como base na criação dos demais filmes e séries. Ver o manga é uma experiência completamente nova e digo que até mais recompensante.

O traço de Shirow é bem expressivo e autêntico

Começando do começo

O mundo é um futuro onde a tecnologia foi revolucionada pela criação das micromáquinas (antes ainda do termo nanomáquinas ser usado, lembremos que é uma história escrita em 1989!). Graças a isso, foi desenvolvida a tecnologia dos cyberbrains, os cérebros cibernéticos, que permitem que seu usuário possa criar uma interface entre seu cérebro biológico e as redes neurais de informação. Basicamente, é como se fosse nossos aparelhos utilizando a nuvem na internet nos dias de hoje. A partir disto, a computação e a cibernética andam de mãos dadas, possibilitando humanos de se aperfeiçoarem com partes cibernéticas, seja de membros e pequenos upgrades até o ponto de ter um corpo completamente sintético, tornando-se ciborgues.

Nossa protagonista é exatamente o último caso, ela possui um corpo inteiramente cibernético, possuindo apenas um cérebro humano dentro de uma proteção de titânio. E por experiência própria, ela sabe muito bem como é se proteger e evitar ataques de hackers que querem invadir sua mente, seja para roubar informações ou até mesmo tomar ações contra sua vontade.

Em um mundo onde a tecnologia reina suprema e as pessoas se vêem cada vez mais dependentes dela, abre-se também um leque de desastres e oportunismos. O dia a dia é tomado por grupos terroristas, exércitos secretos, organizações milionárias controlando a vida das pessoas e até mesmo o próprio conceito de limites de uma inteligência artificial e a alma humana. E para conseguir colocar algum tipo de controle nessa situação, o governo se vê cada vez mais pressionado a tomar decisões.

Com esse gancho, Motoko começa a história como uma freelancer junto de sua equipe tentando a todo custo criar um setor específico para trabalhar para o governo. Depois de muita insistência e provar sua competência várias vezes, o governo japonês finalmente libera verba para a criação do Setor 9 de Segurança Pública, especializado em anti-terrorismo cibernético, chefiados por Daisuki Aramaki. A partir daí, missões vão chegando, em cada uma sendo um capítulo do livro, onde tudo se converse na caçada ao Puppet Master/Mestre dos Fantoches.

O Setor 9

A equipe de Motoko é formada principalmente por seu praticamente-braço-direito Batou, Ishikawa e o novato Togusa.

Motoko Kusanagi em sua formalidade

Motoko Kusanagi

A famosa Major e protagonista da história. Já na primeira página do manga é dito que Motoko não é seu nome real, e que este corpo que ela habita no momento é um modelo especial super avançado que possui uma aparência comum para executar missões em qualquer lugar do planeta sem chamar atenção.

Ela é nervosinha, sorridente, temperamental, gosta de uma bebedeira, sabe fazer uso de seu sex appeal, se envolve em muitas coisas ilegais e não liga nem um pouco em respeitar seus superiores, como por exemplo chamar Aramaki de “cara de macaco”. Um vez ou outra questiona sua realidade em ser um ciborgue, mas essas indagações nunca acabam em seriedade, já que nada para ela é muito sério.

Ela não tem medo de ser o que é, e isso é quanto a tudo. De sua vida como ciborgue até mesmo sua sexualidade. Ela é direta e dura na queda quando o assunto é trabalho, mas não dispensa passar suas férias na companhia de mulheres, o que causa uma reviravolta enorme na cabeça de Batou pois ele e Motoko estão em sincronia cerebral. Ou seja, o que ela sente, ele sente, e vice versa. Incluindo detalhes bem gráficos (ver abaixo na matéria sobre a página censurada do manga!). Em certa parte da história ela tem um namorado.

Batou e uma fuchikoma

Batou

Ele é o segundo em comando e considerado o segundo melhor lutador do Setor 9. Seu porte físico e sua cara malvada não mostram muito de seu comportamento piadista, seu coração em cuidar de fuchikomas (as unidades móveis de batalha usado por eles) e o carinho que tem em cuidar do seu time como se fosse sua família, especialmente Motoko. E exatamente por ele considerar muito as pessoas, que ele se torna extremamente sério e impulsivo quando alguma pessoa que ele conhece sofreu algum problema.

Diferente de Motoko, ele não possui um corpo inteiramente cibernético. Não se sabe ao certo quanto do corpo dele original ainda permanece.

Ishikawa

O especialista em tecnologia e armamento do Setor 9. Ele é o mais velho da turma, o que rende longos discursos perante a equipe. Tem uma personalidade mais largada, tranquila, e aparenta ser o membro com menos alterações cibernéticas em seu corpo.

Togusa

O novato Togusa era um excelente policial. Casado e pai de família, ele é constantemente assombrado por falta de confiança e medo de falhar. Ele é o personagem mais emotivo de toda a série. Exatamente essas características que o fizeram ser um forte candidato para a equipe de Motoko, por ser tão diferente de todos os outros, quebrando a constância da equipe.

Ligações com as outras mídias e suas diferenças

O contraste é real.

O filme animado lançado em 1995 se baseia em dois capítulos, e o segundo filme, Innocence, se baseia no capítulo Robot Rondo. Nesse universo, mostra-se pouco do real Setor 9 e a personalidade dos principais personagens é bem diferente. Motoko em sua versão filme é estoica, silenciosa, pensativa, ponderadora e toma rumos por motivos muito diferentes do manga. Inclusive a versão do filme estrelado por Scarlett Johansson segue bem à risca a Motoko retratada na animação. Já Batou é mais sério e rude. Togusa tem um background diferente em ele ser o único membro do setor que não passou por nenhum processo cibernético.

O universo Stand Alone Complex, é o que podemos chamar de metade dos dois mundos. É uma animação que vale a pena ser assistida, com duas temporadas e trilha sonora excepcional de Yoko Kanno (Macross Plus, Cowboy Bebop, dentre outros). Muito do universo que foi deixado de lado nos longas é retratado na série SAC, desde ambientação até mesmo personagens.

O último universo lançado em animação, na série Arise, é completamente diferente. Ele é totalmente um reboot. Portanto a origem de Motoko, sua prerrogativa como ghost, uma alma separada do corpo e sua entrada na Sector 9  são bem diferentes.

Em suma, vale a pena ler e assistir tudo, pois cada versão tem seu charme e seu valor!

 Cyber Punk e suas filosofias

Também precisamos ver o ponto de vista do tema cyber punk. Como todo movimento punk, o conceito principal é a crítica à sociedade como um todo, seja sua política, seu modo de vida, seus ideais e acima de tudo, seu consumo. Em quase todas as páginas há um rodapé de Shirow explicando melhor uma situação destacada na página ou simplesmente deliberando sobre seus pensamentos sobre o governo, o exército, as pessoas, os relacionamentos interpessoais e política externa. E todos muito críticos principalmente a um governo japonês do fim da década de 80. É bem importante ter em mente a situação do mundo nessa época, ainda mais ao ler uma nota falando sobre o líder russo Gorbachev. Ao mesmo tempo, é fácil remeter à nossa atualidade ao ler sobre discussões entre ministros ou desabafos da Major sobre o louco consumismo da humanidade.

A Publicação Brasileira

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No Brasil, o mangá foi lançado pela Editora JBC. Os principais capítulos contam com as primeiras páginas coloridas e o livro possui uma contra-capa bem caprichada com todos os textos originais não traduzidos, mantendo o aspecto bem legal. Não se preocupem, a tradução está toda no posfácio do livro! A tradução ficou bem adaptada, com muitas gírias e coloquialismos bem colocados, já que conversa polida não é nem um pouco o forte de ninguém dentro dessa história.

Como a publicação aqui segue a risca as demais publicações internacionais, a polêmica página que mostrava Motoko em uma sessão de sexo cibernético (praticamente um e-sex) com suas amigas foi censurada. O próprio Masamune Shirow tem relatos controversos a respeito dessa página, indo desde “fiquei com vergonha e fiz outra” até “eu queria mostrar uma cena assim mas não queria desenhar bundas de homens então apenas desenhei mulheres”. Ele tem uma forma bem sincera de opinar, fica claro nos rodapés.

Vale a pena adquirir? Claro que sim. É uma história que merece mais de uma leitura, ainda mais para acompanhar todas as anotações do autor. O encadernado ficou lindo e merece posto na estante junto de demais colecionáveis.

As páginas coloridas ficaram tão lindas na versão brasileira quanto na original

Ficamos na espera de que saia em breve os demais compilados, o Ghost in the Shell 2: Man-Machine Interface e Ghost in the Shell 1.5: Human-Error Processor. A história do primeiro foi originalmente lançada em 1997, com ao todo 9 edições na Young Magazine. Algumas histórias ficaram de fora e foram inseridas no Human-Error Processor, que foi publicado em 2003.

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