Entrevista: Studio Seasons
Princesa 15-02-2014

Após a invasão da cultura japonesa e difusão dos mangás no Brasil, muitos se sentiram atraídos pela expressividade do estilo e passaram a desenhar seus próprios mangás. Mas, de fato, poucas são as pessoas que podemos realmente chamar de mangaká no Brasil e é uma honra para nós poder entrevistar um grupo de brasileiras que realmente merecem o título, o Studio Season!

Confira a seguir uma entrevista especial com Montserrat, Sylvia Feer e Simone Beatriz e fiquem ligados, pois logo haverá o anúncio de grandes novidades!

 

O Studio Seasons é composto por três pessoas: Montserrat, Sylvia Feer e Simone Beatriz. Qual o papel de cada uma de vocês no grupo?

Todas são ilustradoras e quadrinistas, mas quem desenha mais os títulos são a Simone Beatriz e a Sylvia Feer. Montserrat é a roteirista de todas as histórias e responsável pelos textos relativos ao site, blog e divulgação. Simone também é web design sendo responsável pelo site e blog e a Sylvia conhece um pouco a parte de animação. Cada desenhista é responsável pelo próprio título assumido, não há interferência na arte uma da outra. O grupo tem uma formação original de quatro componentes, na verdade. Tem a Maruchan que é a nossa colaboradora e nos ajuda bastante com a parte de material. Atualmente ela mora no Japão.

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Simone Beatriz, Montserrat e Sylvia Feer.

Só pelo trabalho artístico de vocês dá para ver que já carregam bastante experiência com desenho, quando começou o interesse de vocês por desenho e contos?

Nós começamos muito cedo. Já desenhávamos quando éramos novinhas, e aí só nos especializamos na parte artística e literária, buscando informações, estudando e treinando. Você só consegue um bom resultado se tiver uma atividade constante naquilo, praticando sempre. Quanto mais cedo começa, maior bagagem adquire.

 

Qual foi o seu primeiro contato com os mangás e animes? O que mais te encantou no estilo?

Montserrat: Já tinha visto ilustrações e animações japonesas quando era criança, lá pelos anos 70, e achava lindo, mas só retomei ao tema nos anos 90. O que mais me chamou atenção foi a dinâmica da narrativa e a capacidade de absorver qualquer tema com muitas possibilidades de estilos diferentes.

Sylvia: Eu já tive contato com animes quando era mais nova. Eu adorava ver Zillion, A Princesa e o Cavaleiro, Kimba, O Gênio Maluco, Don Dracula, entre outros. Mas depois de um tempo esses animes deixaram de ser exibidos e nunca mais tive contato. Anos depois,  por acaso eu estava passando os canais na TV e de repente, na Rede Manchete estava passando Cavaleiros do Zodíaco. Foi quando eu decidi que era esse estilo que eu queria seguir. Pra mim, a liberdade de expressão do traço, a variedade de temas e histórias e a leveza e a dinâmica nas diagramações fizeram a diferença.

Simone: Meu primeiro contato foi com Speed Racer, depois vieram Pirata do Espaço e Yamato. E foi vendo Yamato que decidi que queria aprender a desenhar naquele estilo “de olhos grandes”! E o que me encanta no mangá é sua versatilidade, rapidez, poder contar qualquer história nele.

voguelQuando surgiu a ideia de formar o Studio Seasons? Qual era o objetivo inicial do grupo? Vocês esperavam um dia ser publicadas?

Nós tivemos a ideia de formar o grupo em 1996 e o objetivo era publicar mesmo, desde o início. Contar histórias, nossas histórias. Se os japoneses podiam fazer as suas com tanta variedade de arte e temas por que nós não?

 

Qual foi o primeiro trabalho publicado de vocês? Qual a sensação de ser lido por milhares de pessoas?

Nossos primeiros trabalhos publicados, fora de uma revista, com títulos solos foram, simultaneamente, Oiran e Sete Dias em Alesh, pela editora Hant. Foi uma experiência ótima e nos ensinou muito. O público reagiu de uma maneira incrível e ficamos felizes em poder comprovar algumas de nossas teorias de produção (risos). Infelizmente, a editora teve problemas apesar do sucesso do material e não conseguiu seguir adiante com vários projetos. Mas essas séries estão aqui na nossa fila de produção e queremos muito poder relançá-las.

 

As duas obras que vocês tem com a NewPOP, Helena e Zucker,  possuem uma forte presença de cultura brasileira, bem diferente dos mangás nacionais que geralmente são voltados para a fantasia medieval. Como foi a experiência de unir as duas culturas?

Na parte de linguagem não foi muito complicado porque o mangá, assim como outros tipos de quadrinhos, é marcado por um conjunto de características gráficas que absorvem qualquer tema. No Japão é comum contar histórias de outros países. Para nós, falar do Brasil no mangá é como falar de qualquer outro país ou lugar. Basta saber trabalhar o conteúdo porque, no final, você vai ter o mesmo trabalho. Tem de pesquisar do mesmo jeito. Engana-se quem acha que fazer histórias passadas no Brasil é mais fácil que fazer uma passada em outro país. O brasileiro tem de aprender a falar daqui com a mesma naturalidade que fala de outro lugar, porque lá fora também existem problemas. Não existe lugar perfeito, mas existem modos de se mostrar e valorizar as coisas.

 

Atualmente, em grande parte por causa de Bakuman, os leitores compreendem melhor o processo de criação de uma obra, seja ela mangá ou não. O Studio Seasons também trabalha com os mesmos passos? Há alguma diferença marcante?

Como nós já tínhamos estudado o modo como o pessoal trabalhava no Japão, Bakuman acabou não apresentando novidades técnicas, mas para quem nunca tinha visto como se fazia um mangá, foi um processo interessante. Nós usamos algumas coisas na parte de produção de arte e obviamente a mesma linguagem gráfica, mas não usamos name, por exemplo. Montserrat faz o roteiro e depois quem vai desenhar cria o storyboard – existem outros mangakás que também fazem isso. Achamos que a diferença mais marcante é que aqui não existe o estágio da pré-aprovação de capítulos pelo editor, porque não seguimos os mesmos moldes de publicações japonesas e nem temos a mesma estrutura editorial. Cada país faz suas adaptações, nesse sentido.

zqUma das coisas que mais chama atenção na obra de vocês é a presença de vários artifícios típicos dos mangás, como as retículas. Só que no Japão existe uma indústria própria para a produção de retículas, como vocês se viram no Brasil? Quais outras dificuldades vocês encontram?

Bom, no começo era um sufoco (risos)! Nós tínhamos retícula aqui no Brasil, mas eram usadas para engenharia e arquitetura. A maioria dessas retículas vinha da Inglaterra ou Itália. Elas eram mais rígidas e não tinham a variedade de padrões das feitas para mangá no Japão. O que fazíamos era comprar e escanear esse material para usá-lo, aplicando-os pelo Photoshop, porque cada folha era muito cara e não havia condições de se aplicar manualmente sem ter um custo absurdo. Com o tempo surgiram os softwares com retículas como o Manga Studio e nós o adotamos. Com a internet adquirir certos materiais ficou bem mais fácil e através da Maruchan conseguimos outras padronagens que não se acham nos programas. Escaneamos os novos que adquirimos e aplicamos digitalmente, em conjunto com as retículas do Manga Studio.

 

Então parte do processo da produção é feito no computador? Vocês ainda desenham em papel e nanquim? Quais os processos que vocês fazem digitalmente?

Sim, hoje em dia, grande parte do processo é feito no computador. Nós ainda desenhamos as páginas no papel, quase sempre, e fazemos algumas coisas em nanquim (isso varia de acordo com o resultado que desejamos). Tem muitas coisas que fazemos no computador por praticidade, como a lineart das ilustrações coloridas digitalmente, mas estamos usando muito lineart digital para as páginas também. As retículas são aplicadas por Photoshop e Manga Studio, assim como vários detalhes dos requadros, balões e as falas.

 

Como vocês analisam o mercado editorial atual para artistas brasileiros? Qual foi a mudança mais evidente?

Ainda é um mercado pequeno e com dificuldades financeiras e estruturais. Fingir que valorização da leitura não tem nada a ver com o problema é tapar os olhos para o que acontece ao nosso redor. Não adianta você ter uma população com condições financeiras se ela não absorve a cultura produzida também. É um assunto tão complexo que daria muitas e muitas páginas porque uma coisa leva a outra. A cara do nosso mercado é resultado de uma série de coisas, basicamente de nossa história cultural, social e econômica. Temos também um grande problema de desvalorização cultural por questões diversas. Achar que tudo vai ficar lindo em dez anos é irreal. Real mesmo é buscar outras soluções de mercado, como os artistas estão fazendo, trabalhando com tiragens menores, apostando em estrutura online, material independente e vai por aí afora. Editoras podem melhorar no sentindo de estrutura e organização, assim como em conhecimento técnico aplicado já que nem sempre terão capital para investir em grandes quantidades. Sempre dá para melhorar um pouco mais. A mudança mais marcante desde que começamos é que gradativamente as editoras estão começando a absorver melhor a ideia de trabalhar com artistas nacionais, embora ainda haja um longo caminho a percorrer para criar uma estrutura melhor.

 

No ponto de vista de vocês, dá para ganhar a vida só com mangás e quadrinhos no Brasil de agora?

Ainda não. É necessário que algumas coisas mudem para que isso seja possível, principalmente na parte de como o material é feito e remunerado, e na estabilidade do mercado tanto para os editores venderem seu material como para o artista ter um público fiel que consuma.

 

Quais as maiores dificuldades que vocês passaram até serem publicadas? Com a experiência que tem agora, que outras alternativas vocês poderiam ter tomado na época?

Achamos que foi a falta de conhecimento do que era mangá e a pouca disposição do pessoal pagar por seu trabalho. Tinha muita gente usando o recurso de “seu pagamento é a publicação” e assim se botava muita gente novata nas bancas e se queimava muito o filme de quem queria fazer uma coisa mais séria. Achamos que não teria muito que fazer naquela época mesmo com nossa experiência de hoje, porque o mercado é feito por um conjunto de fatores. Talvez fôssemos mais cuidadosas com alguns contatos. Você encontra bastante gente mal-intencionada, infelizmente.

 

Podem nos contar um pouco de cada título que vocês já publicaram?

Bem, Oiran e Sete Dias em Alesh foram nossa estreia oficial como títulos solo, mas já tínhamos feitos alguns trabalhos antes. Publicamos algumas histórias na extinta Booken, como Senhores das Lendas e Duetto – essa última teve uma série desenvolvida para ela depois, e se passa na Inglaterra no começo do século XX. Tem umas pitadas de humor e é basicamente uma trama de detetives. Em Oiran nós abordamos o tema de detetives novamente, só que ambientadas no Japão Feudal. Kimura Fushigi é como um Sherlock Holmes samurai e a partir dessa história Montserrat criou as Crônicas de Edo que são outras aventuras dele, mas essas como publicação online. Sete Dias em Alesh é uma aventura num mundo desértico onde se realizam corridas de resistência. Mitsar, que foi publicada na Neo Tokyo, é uma aventura prévia com as personagens de Alesh. Zucker foi feita especialmente para a Neo Tokyo e é uma trama com influência de contos de fadas, passada do sul do Brasil. Já os Contos de Sher Mor tem um perfil de light novel e se ambienta num outro universo onde existem mundos elementais, elfos, humanos e uma batalha espacial que está prestes a acontecer. Nós também publicamos no jornal Florida Review feito para a colônia brasileira na Flórida. Lá publicamos as tirinhas Patuska e Os Ronins (esta última foi relançada dentro da Neo Tokyo também) e duas novelas: Profanação e Os Manipuladores. Patuska era uma tirinha que mostrava o universo de um grupo de brinquedos e seu cotidiano e Os Ronins contava de forma cômica as aventuras de três ronins que resolvem mudar de profissão e se tornam artistas no início da Restauração Meiji. Profanação era uma novela de suspense sobre vampiros e Os Manipuladores era uma ficção científica envolvendo um serial killer e paranormais. Também publicamos uma light novel dentro da revista Quark, chamada Zona Quantum – é uma ficção científica que envolve batalhas espaciais, viagens interdimensionais e tramas entre impérios. Nós a retomaremos numa versão online.

simone16Desses lançamentos qual vocês mais se orgulham? Por quê?

Cada um teve uma importância em sua época. Nós gostamos muito de Oiran e Sete dias em Alesh por fazerem parte dos nossos primeiros projetos que tiveram a oportunidade de ter uma publicação solo.

 

Existe algum tema ou história que você tenham vontade de trabalhar num futuro?

Nós temos muitos projetos na gaveta, inclusive alguns com roteiros prontos, como Dragons, Contos de Amor e Honra, Ninpo, Hiroshima Boulevard, Voguel, Biblios e vários outros. Agora só precisamos fazer os que estão na fila (risos). Para nós não é problema escolher um tema. Se for uma boa história para contar, nós contaremos, desde histórico até ficção científica.

 

Vocês já procuraram participar de campeonatos e premiações internacionais como o Internacional Manga Awards?

Nós já participamos uma vez para experimentar e notamos que eles, salvo raríssimas exceções, tendem sempre a selecionar material já publicado em formato tankoubon. Fizemos mais para comprovar o que já imaginávamos. Talvez participemos mandando algo pronto, no futuro para ver como seria recebido, mas não acreditamos muito em concursos como pontos para referência de qualidade ou pontapés para carreiras. Você mesmo tem de fazer seu caminho.

 

Qual a obra favorita de vocês? Vocês acompanham muitas obras lançadas no Brasil e no Japão? Qual mais te inspira atualmente?

Temos algumas obras que gostamos, mas acompanhamos mais por causa do mercado do que como leitoras mesmo. Não sobra tanto tempo para ler quando se está produzindo, embora apreciemos. Gostamos de ver o que sai no Japão mais pelo aspecto técnico que oferecem e observar as mudanças de mercado. Aqui tem alguns que gostamos:

Montserrat: eu gosto bastante de alguns títulos da Clamp e da estrutura narrativa da Rumiko Takahashi. Geralmente, uso mais livros que mangás para me inspirar, mas gosto bastante da diagramação da série Monochrome Myst da Shiina You e dos trabalhos da Kaoru Mori.

Sylvia: É difícil escolher qual obra é a favorita, gosto de várias… Eu adoro Bleach, Fairy Tail, Otoyomegatari e Noragami. Esses estão me inspirando atualmente. ^_^

Simone: como inspiração e estudo uso os trabalhos da Kaoru Mori, Motoka Murakami, Sakamoto Shinichi e Youko Iwasaki. Agora acompanhar mesmo… Já tem algum tempo que não leio nada por diversão. Acompanhava Orange Chocolate da Nanpei Yamada, mas parece que essa obra está parada no Japão.

sylvia24Quais seus objetivos como mangakás para os próximos anos?

Terminar os projetos que estão iniciados como Oiran e Sete dias em Alesh e começar outros que estão em roteiro, só na fila. Isso seria ótimo.

 

Para encerrar, alguma dica para outros autores que esperam um dia poderem ter suas obras lançadas oficialmente?

Bem… Estudar, praticar, ter disciplina e ser flexível quanto aos seus trabalhos. Variar também é importante. Não ficar num tema só ou bolando sagas intermináveis. Comece com o possível e ele te dará a base para coisas maiores. O mercado é bem volúvel, por isso é importante ser capaz de se adaptar e fazer algumas coisas fora do plano A. Tenha sempre um plano B ou C. Mostre seu trabalho, ouça pessoas interessadas e equilibradas. Ignore quem não faz nada ou tende a se esconder atrás de nicks para trollar, mesmo que pareçam bem-falantes. Tem gente boa usando nick, mas tem gente sem escrúpulos também. Lembrem-se disso.

 

Quer conhecer mais das autoras? Não deixe de conferir o site do grupo. Quer fazer você mesmo uma pergunta para as autoras? Faça aqui.

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